Miopia da Proximidade

24 mai

Rascunhei esse post há 7 meses e resolvi jogá-lo no mundo. Lá vai.

Esse post não faz uso de nenhuma pesquisa oficialmente lançada ou estudo científico avançado, aviso de antemão. Falo pela minha experiência. Falo pelos e-mails e telefonemas, propostas e “me tira uma dúvida rápida” que já ouvi de clientes, quase-clientes e conhecidos. Trabalhar com design já havia me preparado para vários pedidos de serviço como se a área fosse um fast-food sem fim e que quanto maior o pacote de programas gráficos, mais rápido sairia o serviço – e o principal, mais barato. Digo serviço porque a maior parte das pessoas que vai atrás de um designer freelancer quer alguém para executar uma tarefa que ele já pensou ou já trouxe a fonte a ser copiada. Não foi à uma agência que é para não sair muito caro, então deduziu que o amigo do colega do seu filho executaria aquilo baratinho, assim, sem nem pensar.

Cliente poucas vezes tem noção de que um projeto envolve planejamento, suor, execução. E uma das coisas que me levou ficar cada vez mais distante do design manualmente dito e mais perto do gerenciamento e planejamento dos projetos foi diminuir o suor desnecessário e tornar a execução o mais enxuta e indolor possível, com espaço para pensar em melhorias ao invés de ficar tapando buracos. Mas claro, planejamento e gerenciamento são uma dupla que depende da experiência, da visão e de muita noção de todo o processo, seja ele relacionado a qualquer parte da comunicação digital.

O que muitos clientes não querem ver – porque assim eles deixam de ser o “autor-psicológico”, o manda-chuva do trabalho – é que ao recorrer a um profissional, ele está comprando planejamento, gerenciamento e execução; não o “faz um sitezinho, um Twitter, um Facebook e um Orkut pra minha empresa?”. Não importa dizer que é “rapidinho, pequenininho” ou qualquer gênero de inho, o processo é o mesmo e, se pudesse ser feito de qualquer jeito, certamente não estaríamos ali conversando, o negócio já estaria prontinho e feito in house.

As pessoas hoje sabem que mídias sociais tem possibilidade de reverter vendas para quase todo tipo de marca, mas muitos não querem ver, nem aceitar que, para ter esse retorno, é preciso investir em um caminho não exatamente sólido. Não sólido, não matematicamente exato, mas um caminho bem direcionado por profissionais e empresas que entendem as mídias e redes sociais e seus públicos, que sabem avaliar campanhas, sugerir inovações e sabem dizer não para coisas que, aos olhos dos usuários pareceriam óbvias, mas que certamente causariam prejuízo para a empresa. Mas não. Em alguns momentos, ainda vivemos na “era do diploma da internet”. Vivemos num tempo em que você pode ser o que quiser, basta 6 buscas no Google e você já consegue até construir a sua própria casa! Como poderiam esses incautos trabalhadores cobrar mais que uma miséria para fazer algo que está ali de graça e que meu filho usa o dia inteiro? Era pra ser baratinho, rapidinho e trazer um dinheirão!

Trabalhamos cada vez mais com coisas muito próximas das pessoas. E essa proximidade desfoca a verdadeira realidade do trabalho, quanto maior o acesso às ferramentas, maior a noção errônea de que são elas as responsáveis pelo produto final – e o trabalho humano é apenas operação simples e pré-formatada. Creio que isso acontece com a maioria das profissões vindas das “Ciências Humanas”.

É claro que existe o outro lado, existem de pequenos a grandes clientes já conscientes da profissionalização do mundo digitalmas vale a reflexão.

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